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Post p/ Chimarrão, em 13/01/2011
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Seis filhos em casa, um sétimo por vir e um oitavo que já se foi. À noite, os cinco mais velhos se deitam numa fina espuma que serve de colchão no casebre de 30m². Só o caçula, de 9 meses, dorme na cama com os pais. O esgoto a céu aberto e os ratos — cuja urina matou de leptospirose o mais novo, com 15 dias de vida — são companhia constante mesmo dentro de casa. Esta é a vida de Patrícia Lucas da Silva, de 32 anos, que (sobre)vive com R$ 150 por mês — e mais nada. Nesta segunda década do século 21, Patrícia é obrigada a fazer o mês durar com R$ 18,75 per capita (por pessoa).
Edna não tem sobrenome. Os pais morreram antes de a
filha ter sido registrada. Aos 29 anos, ela também mora com seis filhos, além do marido e de uma enteada. As crianças, quase sempre sujas de lama, divertem-se com arremedos de bonecas e bicicletas saídas do lixo. No barraco de chão batido, a renda per capita é de R$ 79,33. Ali, ao contrário de Baleia, a cadela-morta-de-fome imortalizada por Rachel de Queiroz no romance “O Quinze”, a cachorra Malhada come mais carne do que os próprios donos. O livro narra a seca de 1915. Edna vive em 2011.
Patrícia e Edna são filhas da mesma agonia. Analfabetas, não
conseguem soletrar a palavra miséria, mas sabem o que é viver nela. As histórias delas poderiam ter lugar no semiárido nordestino, mas se passam no Rio, o segundo estado mais rico do país. Patrícia é uma heroína na quase desconhecida Bat Caverna, e
m Manguinhos, na Zona Norte do Rio, a dez minutos do Centro. Edna vive numa localidade ironicamente batizada de Belo Horizonte, em Japeri, na Baixada Fluminense, no Grande Rio. “Vida sofrida é passar fome, passar frio, dormir num lugar que chove, meus filhos pisarem na lama”, diz, num fôlego só, Edna. Patrícia concorda. E acrescenta: “Não dá para viver com R$ 150.”
Patrícia e Edna estão entre os quase 13,5 milhões de miseráveis q
ue, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), recebem menos de um quarto do salário mínimo por mês no Brasil. Ou seja, possuíam renda per capit
a de até R$ 127,50 em dezembro (hoje, o valor é R$ 135), sem dinheiro até para comer. Ao todo, 7,28% dos brasileiros estão incluídos (ou excluídos, conforme o ponto de vista) nesse patamar. No estado, 547 mil (3,72%) ainda habitam esse mundo. Edna e Patrícia não são as únicas. Na Bat Caverna, o biscateiro Enilson Rosa de Jesus, de 64, põe água no feijão para fazer render os R$ 150 que ganha e divide para alimentar seis sobrinhos (R$ 25 per capita). Em Japeri, Simone
Maria, de 35, chora por não ter como dar de comer aos seis filhos. A comida é pouca. O gás do fogão, escasso. Quando acaba, sem dinheiro, ela cozinha sobre tijolos e uma grelha. — Aqui não passa ninguém. Só Deus — diz o biscateiro, referindo-se à ausência do poder público. Para eles, a esperança vem da promessa de erradicação da miséria feita pela presidente da República. Quem sabe agora, com “a Dilma” e o recém-anunciado “PAC da pobreza”, alguém do poder público passe por ali.
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